Veio de repente. Só deu pra notar quando, no alto da ponte, parecia o ônibus flutuar numa imensidão vazia. Ao longe, poucas luzes não davam a impressão real do relevo das cidades e, mais ainda ao longe; lá, onde parecia ser o horizonte, luzes se perdiam entre mar e céu: estrelas navegavam entre ondas e navios poderiam cruzar o céu sem serem notadas diferenças naquela noite. A imensidão de pessoas encaixotadas não viu. Telefones mil saíram de bolsas e bolsos para noticiar o que todos não viam mais.

Um ao lado: “Estou na ponte mãe. Tá tudo bem.”; outra à frente: “Tem vela na gaveta do meio do armário da cozinha”; e lá iam sem parar um pouco pra notar o nada, nem mesmo por alguns segundos. Era visível o medo em alguns. E lá, em outro lugar que não ali, o alívio de outros.

 

O HOMEM CANSADO

 

Depois de mais um dia, ele chegou em casa, ligou a TV e pôs-se a tomar banho sem pensar muito. No outro dia teria coisas demais a fazer e queria dormir cedo apenas. Escovava os dentes quando aconteceu. Continuou, esperando que voltasse em segundos. Nada.

 Se deitou na cama sem nenhum propósito e, a princípio, estranhou o silêncio que vinha das máquinas paradas no apartamento, no prédio, na rua, em todo lugar. Fechou os olhos; esboçou um sorriso leve.

O telefone tocou. Era sua mulher.

“Oi, querida.”

(...)

“Tudo bem, aqui também ta assim.”

(...)

“Uhum, eu vou acender umas pra quando você chegar.”

(...)

“Beijo”

E foi ouvir o silêncio interrompido, vez ou outra, por um grito ou uma fala isolada.

 

OS CÃES

 

Primeiro o escuro. Um segundo depois, um grito uníssono, tal qual um uivo de adolescentes e crianças invade o espaço, atravessando casas e cercas para, logo depois, dar lugar a um silêncio frio; trilha sonora do vácuo.

Durou muito. Ninguém ouvia nada. Eis que um latido interrompe o sossego. Segue um “Cala a boca, cachorro!” e, logo então, outro diferente cachorro responde alguns aus também repreendidos. Silêncio. Volta o primeiro a latir; volta o dono a xingar, mas abafa-o a voz de outros dois caninos. Outro responde ao longe. Cinco, sete, oito, quantos?!

Cachorros conversam também sem energia.

 

SERENATA

 

Estava pra fechar a mercearia quando chegou correndo um rapaz de violão e flores na mão: “Tem vela?”.

Achou engraçado e não vendeu, ofertou as velas.

 

CURTO CIRCUITO

 

Tinha dois dias que o ventilador não funcionava. Esqueceu denovo de levar pra assistência técnica. “Merda!”, ele pensava. Tava quente aqueles dias. Olhou pro ventilador e pensou que não poderia ser tão absurda a maneira como aquilo funcionava. O fato de nunca ter visto um ventilador por dentro não o impediu de imaginar que poderia consertar o aparelho.

Nem o fato de nunca ter visto um por dentro, nem mesmo o de não ter em casa uma chave de fenda que fosse. Pegou uma faca de mesa e se aventurou no conserto do eletrodoméstico: Depois de analisar bem como era por dentro aquele bicho diferente, notou que um fio não se ligava a parte alguma e que havia lugar para encaixá-lo. Era óbvio! Só ligar o fio ali e pronto! Obvio demais... Poderia não ser nada daquilo. Iria queimar o ventilador se não fosse. Pensou, pensou e repensou até chegar à conclusão de que não teria ventilador se não tivesse aberto o seu e que continuaria também sem ele se ligasse ou não o fio; ainda contando com a possibilidade de ser aquele o fio certo e ele finalmente dormir bem àquela noite. Ligou o fio.

Para testar o conserto preparou o ambiente: deixou uma toalha ao lado da tomada do quarto; limpou o caminho de coisas do corredor até à porta da sala, que deixou destrancada; verificou o extintor no lounge do prédio. Estava tudo ok. Telefone celular à mão para qualquer imprevisto, vamos ao que interessa: Plug na tomada: nada (Botão desligado). Novamente: plug na tomada; botão em Liga; hélices rodando; escuridão.

 

 

MENINA

 

As duas irmãs saíram para o playground que estava tomado pelo escuro. Pareciam deslumbradas com a novidade. Era possível ver no escuro! Então, a mais nova, notou a presença do inseto que brilha: “Mãe! Ó!”. E a mãe, se rindo, disse num sussurro: “Vaga lume”. A menina seguiu correndo o bicho que parecia não dar atenção àquilo e, passou a voar alto. Tão alto que a pequena foi forçada a inclinar totalmente a cabeça pra trás e, ao ver o céu, exclamou do alto da ciência de seus dois anos: “Ó, Mãe! Tanto de Vaga lume!”.

 

 

28 Dias

 

Quando Fevereiro chegar

Não sei ao certo o que irá acontecer

Nunca fui de carnaval

Nunca fui de esquecer

 

Quem me vê sempre par...

Não. Já escreveram isso.

Não devo fazer nada demais.

Contarei menos dias,

Verdade.

Mas nada que entre pros anais.

 

Talvez faça rimas mais ricas

Talvez não.

Talvez seja só mais um mês

Talvez não seja, não...

Tratado a respeito da Beleza Fundamental

 

 

Fica combinado assim, ó:

Beleza é o que o olho disser que é belo e pronto.

 

 

Rodolpho Paixão

 

Daí um dia resolvi que iria rezar.

Desde pequeno, quando havia fé verdadeira nos pulmões dessa pessoa que aqui lhes escreve: eu, esperava interpretações maiores por parte do Ouvinte Longínquo: Deus, Quem nunca respondeu minhas conversas, das quais comecei a desconfiar que fossem monólogos.

Mas, mesmo sendo monólogos, minhas orações eram carregadas de boas intenções. Lembro de ter começado pedindo a Deus que olhasse pela noite da minha família. Era justo. Minha família eu via todo dia. Tinha lá seus problemas mas merecia um bom sono como toda outra família. Mas família não é só quem mora com a gente. E, como pedia pra que guardasse a noite do meu irmão e dos meus pais, comecei a pedir pra Deus olhar pelos meus tios, tias, avós, primos, primas e todos, enfim, que fossem meus parentes. Mesmo os que eu não conhecesse, eram minha família afinal.

Passado um tempo notei que, seguindo algum raciocínio, era possível crer no parentesco total dos seres humanos. E saquei que seria uma boa rezar pelos negrinhos da África e pelo povo da Irlanda do Norte. Saquei também que seria mais eficiente rezar pelos governantes, coisa e tal. Rezava por tudo que se movesse e por tudo o que fosse estático também. Rezava pela existência.

Depois de mais tempo, notei que as respostas ainda não vinham (Deus é um sujeito muito reservado...). E, mais do que respostas, faltava atendimento naquilo em que era pedido.

Deus, agora 'se havia', não dava muita trela. Deus era negligente. Deus tinha algo mais importante a fazer. Deus, que me perdoem, era o caralho! Não era pedindo pra Ele que as coisas mudariam.

Bacana, né não? Não é pra Deus que a gente reza. A gente reza é pra gente mesmo. Pede ajuda pra Deus pra ver se toma coragem e, enfim, assim que funciona. Deus tá afim que a gente se vire. Assim passei a acreditar desde então. Respeito o Cara. Gosto dele e tudo o mais. Só que não conto com a Sua ajuda divina. Talvez ajude muita gente e talvez até eu mesmo seja um ingrato e Ele tenha me ajudado um bocado, mas não quero perturbá-Lo mais. Afinal, Ele tem muito o que fazer. Coisas importantes como ajudar madames a achar um vestido decente, aposentados a ganhar na Tele-Sena ou até mesmo um pai de família arrumar um emprego vez ou outra.

Então foi assim, vendo as lamúrias por que passa um deus, quando, como disse no começo do email, resolvi que tinha que rezar novamente. Desde que resolvi que Deus não se preocuparia mais com minhas angústias pessoais e meus infernos diários, se passaram alguns poucos anos. E, como da primeira vez que o chamei pra dizer que não iria lhe perturbar por um bom tempo, Ele permaneceu calado ouvindo mais ou menos o que se segue:

'Deus, queria lhe pedir algo esta noite. Algo que pouca gente deve se tocar da necessidade, mas que imagino não ser o único a lhe pedir. Pelo menos assim eu espero. Deus, eu peço que o Senhor se guarde esta noite. Coloque Seus anjos pra guardar a Sua volta e tudo o mais que possa haver de seguro por aí. Se abençoe, meu Velho. Peço que tenha uma noite tranquila e que tudo de bom aconteça com Você. 'Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, Amém.''

Como disse, ele permaneceu em silêncio. Mas, diferente das outras vezes, senti que tinha sido sincero e que Deus tinha gostado. Pelo menos não me desintegrou com um raio vindo do céu, um buraco debaixo da minha cama, ou coisa do tipo. Talvez Ele apenas não se importe. Ou, quem sabe ainda, simplesmente não tenha entendido.

Canto de Caderno

O Lobotomia Lírica apresenta uma nova série baseada nos devaneios de Rodolpho Paixão, por ventura datados em seus cadernos escolares do Ensino Médio até os dias atuais.

  O sorriso da professora é lindo. Só o sorriso...

               

  Lembra o "smile" da Poliana...

  Poliana é toda linda. Não o sorriso apenas,

  Poliana toda é linda.

(Caderno de Língua Portuguesa, 27 de março de 2007)

   O professor insistia em explicar o que ninguém queria saber. O ar parado, mesclado ao frio, dava à sala um ambiente sonolento. A Barroca à minha frente transcrevia uma lírica da cabeça ao papel. E eu, narrativamente tedioso escritor, tentava passar o tempo longe daquilo.

  Mas o professor insistia. Meus ouvidos eram nulos e minha consciência negativa. A Barroca lia algo no papel e a garota ao lado compilava os escritos do professor.

   Lembrei de morte, senti sono, parei a escrita e fui descrever a Barroca:

   E a pele,

   Linda em sua alvura,

   Fazia antíteses

                  [Inomináveis antíteses!

   aos negros cabelos.

 

   E a perfeição

   de suas formas

   era disforme.

   Mas como era linda

   tal imperfeição!

 

   Seu sorriso

   não era tão,

   por assim dizer,

   "barroco".

   Mas era,

   por essência mor,

   sutilmente sacana.

 

   E o amor

   ainda não se disponibilizara.

   E o ardor

   ainda não acordara.

 

 

(Caderno de Física do ano de 2005)

 

"Átomos de Cloro,

Números Atômicos,

Balanceamentos e Pontes de Hidrogênio.

 

Como pôde,

algo tão visceral

se tornar mecanicamente

monótono,

eu não sei.

 

Apenas me recuso

a interromper tamanha

manobra de constância intelectual."

                                                    (Rodolpho Paixão_Caderno de Química, 23 de Junho de 2005)

Era uma vez Soraya, uma bela moça de futuro incerto e cabelos cor de fogo, cujo maior tormento eram os cuidados que tinha de dispensar a sua avó, dona Nina.

Toda semana Soraya ia à casa de dona Nina levar mimos à velha. “Bolo de laranja? Sabe que nunca comi bolo de laranja?”, dona Nina já sentia o peso de sua idade. “Como não, vovó, se foi a senhora mesma quem me ensinou a receita?!”, Soraya já não agüentava mais ter que ser paciente com a senhora. Queria logo se ver livre da velha. Se não fosse pelas cifras que possuía, dona Nina há muito tempo já não desfrutaria da companhia da neta.

...

 

É domingo e o telefone toca na casa de Rufus, um lenhador das redondezas:

“Alô?”

(...)

“Tem certeza disso? Não acha arriscado?”

(...)

“Sabe que não concordo com isso, mas já disse que te amo e faço o que for preciso pra lhe arrancar um sorriso às vezes.”

“Idiota”, Soraya desliga o telefone do outro lado da linha e se põe a preparar os bolinhos carregados com altas doses de Diazepam.

 

...

 

“Pois não?”, pergunta dona Nina ao interfone.

“Sou eu, vovó. Soraya.”

“Quem é Soraya? Já vou dizendo que não quero enciclopédia!”

“Não vovó, sou eu, sua neta...”, ("Velha maluca...").

A casa de dona Nina tinha um cheiro excessivamente doce que deixava Soraya coberta de náuseas e vontade de estar em outro lugar que não ali. Mas ao ver o broche com um rubi cravado que a velha ostentava na lapela, Soraya abriu um sorriso simpático e terminou de entrar na sala que, como toda a casa, era grande demais pra uma senhora solitária.

“Que cabelo vermelho é esse?! Ta parecendo uma vadia. Pra quê isso?!”

“Sei lá vó! Vermelho é melhor... Quer bolinho?”

“E essas unhas enormes? Que coisa mais vulgar! Não foi você quem fez esses bolinhos, foi?”

“Você põe coisa muito pior na boca...”

(...)

“Oi...", dona Nina fala agora com a neta como se ela tivesse lhe sido conjurada naquele exato instante em sua frente, "Há quanto tempo está aí? Por que não avisou que viria? E isso aí, são bolinhos?”

“Sim, vovó, são bolinhos. Quer um pouco de leite também?”

Não demorou muito, dona Nina já estava apagada no sofá da sala de estar. Soraya já telefonara para Rufus e ensaiava um choro cenográfico.

“Telefonou pra polícia?”, Rufus perguntou enquanto olhava assustado a velha mole no estofado.

“Que foi, tenho cara de idiota?”

“Só pra ter certeza...”

Apesar de ter feito as coisas como planejara, Soraya teve medo de descobrirem o veneno quando examinassem o corpo da avó e por isso pediu ajuda ao namorado lenhador. Acontece que Rufus não era lá muito dotado de astúcia e não havia pensado em nada desde o telefonema da garota.

“Como assim, ‘não vou esquartejar’?!”

“Não vou fazer isso! Faça você se quiser, eu não pico ela!”

“O que pensou em fazer então?”

“Não pensei em nada...”

“Que bosta é essa de ‘não pensei em nada’?!”

“Não pensei, oras! Nunca fiz nada do tipo...”

“Daqui a pouco ela começa a feder e daí a gente não tem muito tempo até aparecer um vizinho xereta!”

“Não grita comigo!”

“Como você é estúpido Rufus! Pára de chorar, droga!”

E nessa foram até o cair da tarde. Soraya já não sabia mais o que fazer e Rufus reclamava de fome e dor-de-cabeça. “Quero ir embora...”, ele dizia enquanto ela tentava tirar algo que ainda não tivesse sido pensado da cabeça. Foi então que, ao olhar em direção ao bosque (Sim, havia um bosque!) que ficava nos fundos do condomínio de dona Nina, Soraya teve sua epifania:

Já eram umas dez horas quando Rufus retornou do mato trazendo a carcaça de um lobo grande. Abriram-lhe a pança e colocaram, já um pouco inchada, dona Nina lá dentro. Dali ligaram à polícia com a notícia de um lobo que entrara em uma residência e ficaram a esperar: Ela a ensaiar um pouco mais a cena de choro, ele a se encher de comida na cozinha. “Não vá comer dos bolinhos, heim! Idiota...”.

 

...

 

“Então foi quando matou o lobo e abriu a bariga dele?”, o delegado.

“Sim, senhor. Mas acho que já era um pouco tarde, não é mesmo?”, o lenhador.

“Ai, minha avó! Como eu gostava dela! Ontem mesmo ela disse que eu nunca seria capaz de matá-la!!!”, Soraya.

“Delegado, delegado!”, um soldado corre até a cozinha de encontro ao seu superior e às testemunhas.

“Estou apurando os fatos, soldado...”, responde o delegado em tom seco.

“É a velha, ‘dotô’! Ela ta acordando!”

“Acordando?! Como assim, acordando?!”, interfere a moça.

“Tá lá, senhora. Com o olho mais aberto que tudo!”

“Put... É um milagre!”, dissimula.

Ao chegar à sala, Soraya se depara com a cena de dona Nina sentada no sofá ("Droga de Diazepam vencido..."). Desta vez de maneira firme, dona Nina se via rodeada por policiais que a ouviam atentos. Durante os poucos segundos correspondentes à distância entre a porta da cozinha e a sala, mais precisamente em frente ao sofá, Soraya pensa algumas dezenas de vezes em fugir pela porta da sala. Olha pra sua avó, olha para a porta, retorna o olhar para a avó e abre a boca pra falar algo mas, antes que pensasse no que dizer é surpreendida com a voz da senhora ainda suja de sangue e víceras de lobo:

“Aí está você, minha neta! Estes bons moços estão me dizendo o que aconteceu aqui! Coisa terrível, não acha? Já disse ao pessoal do condomínio que cercasse isso aí mas eles não me ouvem nesse lugar! Graças a Deus você veio me visitar e chamou seu namorado pra ajudar! Não fossem vocês, estaria morta neste instante!”

Soraya se limitou em balançar a cabeça enquanto esboçava um sorriso assustado no rosto. “É...”, Rufus tentou uma reação falada, mas logo foi interrompido por uma cotovelada dispensada por Soraya em sua barriga. “Só concorda, só concorda!”.

No dia seguinte Soraya foi convidada por um produtor de jornais e revistas para fornecer sua história a uma de suas edições. Não demorou muito pra que Soraya tivesse um livro, um carro importado e um namorado novo pois, convenhamos, o Rufus era um idiota.

  Quando Josefina me encarou na porta, me disse que não me imaginava assim, do jeito que sou, mas dum jeito mais belo que não soube representar. E eu disse a ela que nada que se imagina pode ter crédito pois não passa de especulação, devaneio, corrupção intelectual a despeito da realidade. Ou, trocando em miúdos, nunca dá certo.

   Pior ainda foi saber que Josefina ainda me queria e eu nem tampouco ligava pro que ela gostava. Queria mesmo é saber de quando os tais bolinhos dela sairiam do forno. Então fui levando ela aos poucos, sem saber no que ia dar. Até que ela me disse que os bolinhos eram pra encomenda e que não eram pra me dar. Fiquei puto e mandei ela pra casa da mãe do sarampo, enquanto juntava a roupa suja que ainda estava boiando num canto da sala de estar. Foi então que vi o quanto não me importava com ela. Foi então que vi o quanto não me importava com os outros. Foi então que vi o quanto não ligava pra nada.

   Josefina, que nada entendeu, foi procurar outro amor. Um tolo que a quisesse bem e que não ligasse pros seus bolinhos. E eu, que nada tenho com o amor, fiquei a comer bolinhos na confeitaria da esquina, que nada tem comigo, que nada tem com os outros. Na confeitaria, quem encomenda sou eu (E outros, claro!).

E Josefina? Josefina não passa de uma pobre confeiteira de um cliente só. O qual, absurda e freqüentemente, toma café na esquina.

 

 

Um Domingo desses, assistia eu Fórmula Um com meu irmão quando tive uma epifania. Sabe, epifania? Aquela coisa que aparece na cabeça da gente feito diarréia? Pois é.

O garoto de quatro anos do meu lado, após um longo silêncio e ainda com a cara amarrotada de cama, solta uma pergunta que pode ser encarada como pérola: " 'mão...", só me chamava de irmão devido à complexidade de meu nome pra ele. Respondi "hun" sem tirar os olhos da TV.  "Pra onde eles tão indo?".

Bem, sem dizer que demorei um pouco pra digerir a pergunta e sem citar a paciência do menino em esperar uma resposta decente, digo a vocês que nunca mais assisti corridas, não só automobilísticas como quaisquer outras, da mesma forma que antes.

Crianças não têm culpa, mas podem ser cruéis por isso. Meu irmão fez uma pergunta de extrema lógica e eu tive que responder à altura dizendo a ele que mediam quem terminava uma distância em menos tempo e que, pra ficar mais fácil, aquilo era um ciclo. Obviamente, ele não entendeu. Então, como todo bom educador, quis deixar por isso mesmo e provar assim minha superioridade momentânea, mas não me permiti. Desenhei e ele entendeu.

Tanto entendeu que hoje não dá a mínima praqueles carrinhos coloridos que todos um dia insistiram em pensar que fossem de brinquedo. Eu insisto em assistir as tais corridas, mas como já disse, nunca mais foi da mesma forma.

É engraçado como coisas tão complexas podem se tornar tolas de um segundo pra outro. A vida é uma piada. Disso eu já sou ciente. E neste picadeiro disforme que cada um de nós estrela seus quinze minutos, eu vivo a analisar os bastidores. É, meus caros leitores, eu também não entendo lhufas às vezes, mas o que importa é levar consigo um entendimento próprio qualquer. O Rodrigo tem o seu entendimento pra Fórmula Um agora. Eu tenho o meu. Apesar de eu Ter-lhe explicado como funciona aquilo, sua concepção de carrinhos coloridos correndo  sem sair do lugar é diferente da minha. E Platão nem mesmo se importa com isso.

Eu quero um dia Ter a chance de ficar um pouco mais que quinze minutos no picadeiro. Como me parece esfuziante Ter um nome de mármore que atravesse dias a mais que minha vivência! Mas, pra falar verdade, me parece um tanto inútil, já que não o irei ver acontecendo. No entanto, o porém só me é justo se até lá a morte continuar levando, além dos corpos, os espíritos. Então, "eu simplesmente não existiria mais aqui, do lado de fora".

 

 Tem gente que consegue dizer que não se arrepende das coisas que faz e palavras do gênero. Eu não sou assim. Arrependo das coisas. A tal garota é mesmo agradável o bastante pra merecer alguns minutos de escrita, mas me arrependo de como isso se deu. Aquele poema é horrível. Meu editor estava ausente no momento e eu estava por minha vez provavelmente embreagado ou enebreado por coisas alheias. A história, apesar de mal narrada, é verídica. Faltam fatos e instrumentos de retenção de leitura. Não foi um dia feliz aquele quando escrevi. Aquele final de poema é triste de se ler. Aliás, a frase tá errada. O certo seria "Arrumaria na semana sete domingos pra te namorar". Não, eu não tenho vergonha de ser cafona, mas ficou mal-escrito mesmo. Desculpe, garota. Não foi por mal que fiz assim.
 E agora, ouvindo um Roquezinho bacana dos anos setenta, lembrei de outra garota. Engraçado ser versátil o bastante pra sair de um pedido de desculpas pra outro possível fiasco literário, mas não vejo futuro em minhas inspirações, nem mesmo as encaro dessa maneira. Mas isso tudo não vem ao caso. Acontece que lembrei de uma amiga da Thayla com estilo "all-star" que andou visitando nossa casa. Bem, ela vai ficar puta quando ler isso, mas não posso perder a oportunidade. A Thayla mesmo já disse que eu tava demorando pra escrever essa história...
 Aconteceu quando houve uma greve de ônibus em Vitória. Ficamos uns dias sem aula por conta disso. Não entendi o porquê, mas acharam melhor não nos dar aula naqueles dias. Alguns alunos desavisados sempre aparecem com suas caras imbecis na porta da escola nesses dias. Um deles era eu. Bem, depois de saber que não haveria aula e de ter ficado com cara de bunda na frente da escola por alguns minutos, voltei pra casa pelo segundo dia seguido. Lá encontrei a Thayla com cara de tédio por já saber que não teria aula e que seu novo rapaz iria a visitar.
 Ficamos por ali, perdidos. Fui fazer pão-de-queijo enquanto sei lá o que a Thayla fazia. O telefone tocou e ela atendeu sem que eu pensasse em fazê-lo. Era a garota: o motivo da presente narrativa. Pedia pra ir lá pra casa, afinal, estava sem o que fazer sem ter aula. Thayla disse que não tinha problema, creio. Pelo menos a garota apareceu por lá depois de algum tempo.
 Ficamos os três sem ter o que fazer. Jogamos um bocado de conversa fora e esperamos um pouco até ir alugar um filme. Fomos eu e a "Miss all-star" escolher um filme que já havíamos comentado querer ver: "Quero ser John Malkovich". O título é ótimo e até o meio da película a desenvoltura do filme não deixa a desejar, mas acaba virando uma bosta depois. A garota e eu começamos a ver o filme quando o rapaz da Thayla chegou e fez com que... Vou dar um nome a essa garota! Tá ficando difícil de narrar... O rapaz da Thayla chegou e fez com que Jurema e eu assistíssemos ao filme sozinhos. Ela não deu a mínima a esse fato e eu fiz de desentendido também afinal, nada é verdade até que se prove isso (Essa última frase não ficou muito boa, mas deixemos isso de lado.).
 Achamos, como já disse, uma merda aquele filme. Vimos até o final pra justificar o gasto com a locação e logo nos pegamos em abraços intermináveis até o raiar do dia. Mentira. Só tive vontade de escrever isso aqui. Bem, acabado o filme, a Thayla, que já tinha voltado do seu encontro e estava por ali zanzando antes de ir dormir, arrumou um jeito educado de perguntar à Jurema se ela iria embora agora que o filme havia acabado. Acontece que Jurema, depois de ficar duas horas ao meu lado, soltou uma resposta surpreendente: "Não. Vou ficar aqui mais um pouquinho...". Bem, não precisa dizer o que eu, Thayla e toda pessoa de bom senso imaginamos ao ouvir isso. Thayla foi pro quarto e fechou a porta, Jurema foi pra varanda e acendeu um cigarro e eu logo dei um jeito de arrumar assunto com ela. Jurema é bela, jovem, alta, branca de cabelos pretos e com uns ares mutáveis. Bacana a tal Jurema. (Que nome hórrível te arrumei, não é mesmo? Depois você edita pra mostrar pra suas amigas, ok? Não me importo.)
 Acontece que não importava o que tentasse conversar, Jurema não deixava espaço pra uma abordagem contextualizada: aquelas que realmente funcionam e que gastam mais tempo. Daí, quando resolvi que era hora de mandar o contexto pra puta que pariu, a garota me diz que tava tarde e que era hora dela ir embora. "Não!", só pensei. Porra! Ia passar por lerdo, sonso, lesado, sei lá o quê! E isso é terrível pra todo homem. É mais feio que bater em mãe. (Isso foi engraçado. Convenhamos.) Disse então que a levaria ao ponto de ônibus. Ela aceitou. Gostei disso.
 Lá no ponto ficamos esperando por um bom tempo o ônibus que nunca chegaria. Havia greve e a gente nem lembrava disso. Só lembrava do quanto queria um ao outro... Mentira denovo. Tenho que escrever um romance fictício um dia desses... Mas lá no ponto, eu, me valendo de um momento raro de silêncio (Mulheres gostam de falar.), disse a ela que era um pouco lerdo com essa coisa toda pra tirar da tagarelice dela a culpa de não ter falado antes e que era provável que tivesse deixado passar sem ver uma possível "bandeira" dela pra mim. Ou seja, perguntei se era pra eu ter "chegado" nela ou não. Ela riu. Óbvio. Quem não o faria? Foi o que consegui na hora. Horrível, certo. Mas tava lá. Agora era só colher os frutos... (Isso de "frutos" foi imbecil...)
 Após uma risada ela me olhou com o canto do olho e disse "Não vou nem falar nada". Abaixou a cabeça, soltou um risinho enquanto mordia o lábio inferior da boca e insistia em me olhar daquela forma. Isso pra mim podia ser um "Sim! Me pega logo, porra!" ou mesmo um "Te enxerga, garoto!". Tanto que perguntei a ela o que a resposta medíocre queria dizer e ela disse, ainda rindo, "Não".
 Quem me conhece já sabe o quanto também ri com ela, deixando-me totalmente descompromissado com narrativas a respeito disso daqui pra frente. Mas acontece que minha babaquice não termina por aí.
 Como já sabemos, os rodoviários estavam em greve e não haviam ônibus naquela noite. Já se passava da meia-noite e nenhum ônibus havia dado o ar da graça desde as Vinte e três. A Jurema, que mora do outro lado da cidade, começou a ficar preocupada. Disse a ela que poderia dormir lá em casa sem problemas. No quarto da Thayla. Fiz cara de santo e tudo, mas não convenceu. A garota não queria arriscar depois de uma cantada daquela. Fomos até um outro ponto numa avenida mais movimentada. Em vão: nada de Transcol naquela noite. Daí vem o momento em que tudo se torna mais estúpido do que sempre foi:
 Perguntei à Jurema porque não ia de táxi. Ela confessou a falta de fundos. Disse a ela, com toda minha benigtude estupidamente esplendorosa, que isso não era problema já que poderia lhe emprestar algum. Ela fez um docinho, mas esse convite aceitou.
 Eu só não sei qual parte do "emprestar algum" ela não entendeu até hoje..

Não se compra um ideal, não se deve uma idéia e nem mesmo se cobra um pensamento de alguém.
Pensar é algo puro. De natureza nobremente irremediável e inflexível.
Não se força um pensamento nem por brincadeira, quanto mais um poema! Esses são de natureza rebelde. Difíceis de serem domados. Forçar um poema a ser soneto ou ode sem que o mesmo o queira é o mesmo que declarar sua falência na plenitude de sua criação. Escreva, na maioria das vezes, para suas víceras e, quase nunca, para sua razão.

Seja sempre um mensageiro do acaso e não force seus sentimentos, pois eles não te forçarão a tê-los.





Soneto ao Acaso




Como se fôssemos sempre os mesmos!
Em antíteses e redondilhas,
Em trovas e cantigas,
Em cartéis, em meios!

Nos paradigmas,
Nos paradoxos.
Nos estigmas
Sempre, tão inóspitos...

Bate a revolta,
À porta do decoro,
Em companhia do acaso.

Trás ao seu meio a arte,
Leva ao conflito as partes
À parte alta do seu torto.




Rodolpho Paixão


Então me veio à cabeça que era um bom presente pra dar a ela. Faltava mais de um mês e era perfeitamente possível na minha cabeça aprender algumas músicas ao violão.

Fiz uma seleção inicial de dez músicas. Todas muito capciosas e com alto teor de lirismo e dificuldade nos acordes ainda por mim desconhecidos. Acontece que me pus a ser autodidata no aprendizado. Seria até engraçado dizer isso, mas tive a astúcia de perceber que não conseguiria fazer a serenata em completo sigilo e propus uma parceria a um amigo que domina muito bem o instrumento pretendido: Ele me ajudaria a entender como aquilo funcionava e eu aprenderia até o dia intencionado. Caso não aprendesse, me acompanharia com o violão enquanto eu cantaria as músicas capciosas (Que era o que mais me interessava no momento).

Os dias foram se passando no meu violão enquanto meu amigo começava a apresentar sua versão para a situação. Dava pra perceber que não iria comigo à janela da Fulana tocar Nelson Gonçalves, Ataulfo Alves e coisas parecidas. Aliás, eu já havia abandonado a idéia inicial de dez músicas e as poucas que restaram nada tinham a ver com estes autores há pouco citados. Ao invés disso, a intrépida mocinha ria se deliciar ao som do nosso, já tão comum, pop-rock-romântico by anos 80. Visto que Joãozinho, meu amigo, não faria caso da fabulosa empreitada em resgate do lirismo através da música implantada sob janelas femininas (Serenata), fui-me ter muito mais com meu violão. O qual só sabia me dizer que "Pra ser sincero não espero de você" e que, nem se dava conta de que só faltavam pouco mais de duas semanas para a data que previam o acontecimento do aniversário da garotinha.

Foi então que apareceu a Morena. Disse a ela o que acontecia. A idéia inicial de se fazer sozinho uma serenata pra garota, o receio do mau-entendimento, o reconhecimento de incapacidade, o desamparo do mundo e tudo o mais. Ela se simpatizou e resolveu investir na idéia também. Falou de bolo, velinhas, outros amigos e tudo o mais. Então ficou tudo certo. Minha cafonice tinha aliados. Só faltava agora eu aprender violão.

E eu aprendi.

Mas a vida é uma piada de mau-gosto e eu tenho cara de palhaço. A Morena se ausentou na última hora que me restava. Estava eu com meu violão, as músicas na cabeça (solinho e tudo!) e sem companhia pra serenata. Fiquei cabisbaixo com aquilo. Já tinha atrasado um dia e nem ligado pros parabéns eu tinha devido à esperança do presente perfeito (ou quase). Eu era um coió mesmo...

Porém, como eu acabei de dizer no parágrafo passado, eu sou um coió mesmo! Eu tinha violão, música, noite de luar, mulher pra presentear e loucura a butão-de-sola! (Também nunca entendi o que isso quer dizer. Coisas do meu pai...) O que mais precisava pra fazer o que eu queria?! Pro inferno com a companhia, com bolo e velinha! Eu tinha um violão e um pote de gel pra cabelo. Não precisava de mais nada!

Decidido a ir, tomei uma cerveja e me arrumei: Calça social cor de cinza, sapatos de camurça e bicos quadrados, camisa branca de mangas arregaçadas e aberta até o peito onde se amostrava um crucifixo. (Parecia o Sidney Magal.) Quando estava pra sair, me aparece um outro amigo. Um que já tinha me negado a companhia havia um tempo e que resolveu me estender a mão justamente na hora. Apareceu com seu violão. Aprendeu uma música e meia ali na hora em que a gente ia saindo e foi me acompanhar até a casa da senhorita.

Eu, que de bobo tenho muita coisa, me surpreendi com a articulação que me atacou naquele dia: Chegando à esquina próxima à sua casa, liguei pra senhora mãe da barroca pedindo que me abrisse os portões de seu edifício e que levasse a sujeita pro quarto. Pedi isso sem me explicar e fui me ter com a janela.

Neste momento acontece a cena mais linda da noite na minha sincera opinião: Chegamos, eu e o amigo fiel, sob a janela dela empunhando cada um o próprio violão, o tamborete a que se destinava a bunda de cada um e uma garrafa de aguardente. Ao olhar pra janela, não vi a garota, mas sua mãe, que tinha acabado de nos ver e que por ter entendido os violões, a noite de lua, a aguardente, levava no semblante um sorriso tão lindo que a homenageada poderia ter nos jogado um penico cheio até a borda que não me incomodaria em nada. Foi então que diante da lua, da absolvição do sorriso e de tudo o mais, me pus a cantar:

"Boa noite!

Diga ao menos

'boa noite'.

Abra ao menos um sorriso.

A serenata é pra você!(...)"

Depois que ela acordou com sua mãe chamando, toquei mais algumas músicas que eu sabia e, após jogar um beijinho daqueles que a Xuxa manda, me dirigi à saída como se Bucéfalo me esperasse já encilhado.

Foi realmente belo. Um dia farei mais disso, mas pretendo não deixar espaço pra interpretações que eu não queira ouvir.

Tomamos algumas depois, meu amigo e eu, em comemoração pelo sucesso da empreitada em resgate do lirismo através da música implantada sob janelas femininas (Serenata). Ele ficou de cama por uns dias devido à friagem e eu ganhei um scrap no orkut. (Mais do que eu esperava até)

Depois a vida voltou ao normal.

 

O texto a seguir trata da realidade de forma clara, direta e incisiva. Partindo do pressuposto de que nem todos gostam disso, sintam-se à vontade para abandonar a leitura quando se sentirem ameaçados.

Um abraço do autor.

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E hoje, andando pela rua, tive a necessidade latente de agradecer a Deus por ter nascido homem. Uma maravilha a questão de ter sempre à visão belos corpos femininos!

Andando pelas ruas, eram tantos pares de seios, fartos, lúdicos, castos... As pernas, pernocas, perninhas... Olhos de néon, cabelos de Weela... Meu Deus! Como podes ter nos concebido algo assim?!

Isso tudo sem contar a catalepsia de estar sempre à procura de algo perfeito. Vi pares de cromossomos X pra tudo que é gosto possível. O mais engraçado é que a maioria dos gostos pareciam ser meus. E eu aqui: morrendo em frente um computador... Seria isso se não fosse o fato que se segue.

Depois de tanto me deliciar as vistas com a magnificência venusiana, fui me ter com o mar. Ah, pobre mar! Nunca terá o lirismo das alterosas, mas não deixa de ser charmoso por isso.

Sentado no banco ordinário, com a boina também de sempre e um livro que já li, posava de desentendido para extasiar a visão mais uma vez. As mulheres passavam em seu cooper maldito balançando as ancas libidinosas para mim. E eu ali, brincando com a decência delas: Lançando flertes às acompanhadas, incitando as evidentemente necessitadas... Ah, como é doce ser infernal! Sade já sabia disso, mas o problema é que se deixou internar. Coitado.

O que mais me intrigou foi uma moça de cabelos curtos como um Chanell qualquer, mas hoje não tem mais esse nome. Não usava roupa de caminhada, nem tinha cara de quem estava à procura de algo pra noite. Ao invés disso, tinha como vestimenta um vestido branco, florido, sandálias e um ar calmo na cara. Vinha distraídamente pelo calçadão com o andar firme como seus seios, ou os seios firmes como seu andar. Não sei ao certo, mas era um conjunto indissolúvel. As pernas se ligavam de tal maneira às nádegas que não precisava de mais nada, porém passei a crer na beneguitude divina hoje. Os seios roliços eram fartos porém rijos. Algo descomunalmente irrisório diante do rosto. Uma divindade desgarrada na praia. Eu tinha que fazer algo. O animal (tanto no que se diz sexo quanto no que se diz intelecto) existente em mim. ia se pronunciar de qualquer maneira.

Enquanto me extasiava com a visão, fiquei pensando em como abordar a moça. Porém, visto que Deus é um ser bom, pude constatar que ela caminhava em minha direção.

"Que horas são?", ela perguntou com um sorrisinho no rosto.

"São oito e quinze", respondi com cara de quem não quer nada, mas retribuindo o sorriso.

Então ela perguntou que livro era o que estava lendo. E eu, inabalavelmente, respondi que se tratava de Bufo e Spallanzani. "Aquele da TV?", perguntou ela com ar de imbecil. Eu disse que sim, o haviam produzido pra televisão há pouco tempo. Ela disse que estava estudando pro vestibular de psicologia. "Oh, sina!", pensei. Ela disse também que se chamava Clara e que gostava de ler, mas não conhecia muito de Rubem Fonseca, coisas do gênero... Evidentemente perguntei o que ela lia e, surpreendentemente, ela disse que lia auto-ajuda. "E eu aqui me esforçando...", pensei alto. "Han?", ela perguntou e eu disse que não era nada.

Bem, mas antes que eu chegue ao desfeche, deixe-me deliciar à memória que guardo da moça: Que seios! Houve uma hora em que se abaixou para ajeitar a correia da sandália de couro vagabundo (Como as minhas.). O rego entre os seios me dava a visão de seu abdome enquanto furtivamente as auréolas escapuliam do decote. As pernas, dantes citadas, eram mesmo atléticas. E as ancas me davam a impressão de não serem de verdade, tão clarividente era sua perfeição. Os olhos! Meu Deus, os olhos: Contrastavam diretamente à pele de louça. Duas jabuticabas enormes envoltas aos negros cabelos Chanell, que não tem mais esse nome, mas que vale a descrição. O vestido (Tinha que falar do vestido! Que observador seria se não falasse!) branco tinha flores de hibisco na estampa. Algo de se arrancar sem perceber... Definitivamente era um contexto maravilhoso para se fazer sexo. Faltava apenas colocar minha capacidade de persuasão à mostra.

Dados alguns minutos que a moça estava conversando (Já sentada), eu comecei a dar o entender de que estava querendo algo mais do que aquilo. Ela, obviamente, deixou que eu terminasse de mostrar minhas intenções pra dizer algo.

"Nossa!", ela disse, "Pensei que nunca ia perguntar!".

E eu, entusiasmado com a situação, vi que era pra isso que eu estava no mundo. Que Deus fez isso tudo pra eu desfrutar e que...

"São duzentos paus. Mas sobe pra trezentos se não tiver lugar onde fazer."

O quê?! Eu estive esse tempo todo gastando minha lábia sobre uma garota de programa e não tive a astúcia de perceber isso?! Sou um imbecil.

"Você faz programa?", perguntei com um sorrisinho meio incrédulo, meio esperançoso de ela dizer "Brincadeirinha!", mas ela não disse.

"É sério.", disse rindo da minha cara.

"Mas o vestido, a sandália..."

"Que tipo de puta usa sandálias e vestido?!", pensei.

"Vocês turistas...". Claro! O tipo de puta que corre atrás de turista.

Era isso! Eu estava sentado no calçadão à noite, no princípio do carnaval, de calças, sandálias, camisa aberta e o que mais agravava: Uma Boina e um livro. Ou era turista ou era babaca. Ou então um misto dos dois.

Então eu disse a ela que não era turista. Que era estudante, que não tinha dinheiro e que, por isso, e somente por isso, não a comeria naquela noite.

Ela concordou que não comeria mesmo e disse que eu era bonito e que daria pra mim se não precisasse de dinheiro. Contou também que estava no ramo a pouco tempo e que não tinha muita experiência em distinguir os tipos de pessoas. Tentei me sentir consolado com aquilo, mas não deu certo.

Ela se levantou com um gesto gracioso, mas já repelido por mim, e continuou caminhando.

Dali eu não tinha mais entusiasmo de ver as pessoas passando na rua. Uma ou outra mulher me chamava a atenção, mas nada demais. Então levantei-me e fui em direção ao meu apartamento. No caminho, vi um senhor barrigudo abrindo a porta dum carro com placa "G qualquer coisa" pra moça de pernas de louça e olhos de jabuticaba. Então pensei em como é ruim ser um duro e fui me ter com vocês, leitores.

Obrigado pela atenção.

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